Maurício de Sousa: uma história muito além dos quadrinhos

“Gostar do que se faz e estar ativo é a melhor coisa que existe. Nem sempre é fácil, mas é muito divertido.” Essa é só uma das lições que Maurício de Sousa, desenhista, criador da Turma da Mônica e empresário tirou de seus 50 anos de experiência. A forma como conduziu seus negócios aliados a sua criatividade e persistência são exemplos de um modelo de gestão de sucesso.
Hoje, a Turma da Mônica detém mais de 80% do mercado brasileiro de quadrinhos e, com o faturamento obtido nessas frentes, investe na pré-alfabetização pela internet usando seus personagens. O projeto teve início na China, onde já atingiu duzentos milhões de crianças. “Neste momento, estamos chegando também ao Vietnã, com a estruturação de um projeto de educação com foco no exterior, e até 2020 estaremos totalmente dedicados a isso. Temos entre os próximos alvos a Coreia e Indonésia, além de alguns países europeus”, explica.
Com esse projeto, mais a comercialização de tiras, tablóides e revistas, a empresa tem produtos em países com culturas completamente distintas.
O desenho como trajetória de vida
A arte sempre esteve presente na vida do desenhista, que conta que mal andava e já pegava os lápis que encontrava para rabiscar o caderno do pai. “Desenhava como toda criança, mas, ao contrário das outras, nunca mais parei.” A primeira experiência profissional foi na adolescência, quando aceitou a encomenda de um amigo do pai para fazer cartazes comerciais. “Foi muito importante, porque me ensinou muito mais que cobrar pelo meu trabalho, me mostrou que era possível ganhar dinheiro desenhando e eu gostei daquilo.”
A primeira vez que mostrou seus desenhos para o diretor de arte da Folha de S.Paulo foi uma experiência desestimulante. Ouviu que desenho não dava dinheiro, nem futuro e que era melhor fazer outra coisa da vida. Persistiu. Conseguiu uma vaga de copidesque e passou a repórter policial até que fosse chamado para desenhar regularmente quando criou a tirinha do Bidu, inspirada num cachorro que teve na infância.
Naquele momento, ele era só um desenhista, não tinha nada de empresário, mas já estava à procura de respostas. “Se pretendia viver de quadrinhos um dia, tinha que encontrar um meio de ter receitas.” Então, quando criou seu primeiro grupo de personagens decidiu montar um estúdio próprio e se tornar freelancer. Como não havia um contrato de exclusividade com a Folha, o desenhista passou a fornecer tirinhas para diversos jornais e criou o Jornalzinho da Mônica, que chegou a ter tiragem de 900 mil exemplares semanais.
Ao entrar no mercado de licenciamento dos seus produtos, Maurício de Sousa se inspirou em Gulbenkian, um dos homens mais ricos do mundo na década de 30, que encontrava formas de melhorar os processos e garantir os bons resultados nos negócios de amigos em dificuldades. Ele não vendia a ideia, mas se ela desse certo, pedia 5% do lucro obtido com a inovação. Aderiu ao exemplo.
Surgiu um negócio maior: o licenciamento para o extrato de tomate Cica, com histórias protagonizadas pela Mônica e pelo elefante Jotalhão, que virou o mascote da empresa. “Deu tão certo que em aproximadamente três anos foram gravados noventa filmes publicitários para o extrato de tomate e outros produtos da empresa.”
Dali em diante, os contratos de 5% foram se multiplicando com propostas de produtos numa série de indústrias. “Em 2010, somamos mais de cem empresas trabalhando conosco e mais de dois mil produtos em linha como, por exemplo, a maçã e as fraldas da Turma da Mônica.”
Os anúncios da Cica contribuíram para a popularidade dos personagens e o lançamento dos gibis da Turma da Mônica. “Passamos 19 anos na Abril e quase o mesmo tempo na editora Globo. Em 2007 fechamos contrato com a multinacional Panini, com quem conquistamos mais de 80% do mercado brasileiro de quadrinhos.”
O desenhista investiu em muitas frentes. Diz que algumas deram certo e outras não, mas os quadrinhos nunca deixaram o negócio em risco.
Sonhos transformados em ideias
Maurício de Sousa ressalta que seu pai sempre apoiou sua carreira de desenhista, mas dizia que era preciso ter um negócio à parte, algo que permitisse a ele ganhar dinheiro. Por isso era necessário ser mais que um artista e ir além do desenho. Assim, ao longo de toda a sua história, o desenhista se preocupou com as trajetórias e as estruturas que o conduziriam aos seus objetivos. “Preparei estratégias, bolei esquemas, montei equipes e sempre procurei olhar para frente. Muitos falam em sonhos, mas eu prefiro falar em ideias. Diante de uma ideia, eu me obrigo a montar um planejamento que faça a coisa acontecer”, afirma.
A receita do sucesso, segundo Maurício de Sousa, é que para viver bem, feliz e ganhar dinheiro é preciso, antes de tudo, gostar do que se faz. “Ao idealizar um caminho, pense no que gostava de fazer na infância, no que sonhava em fazer quando criança. Pense no que o agrada e numa maneira de isso gerar dinheiro para você e outras pessoas.”
Para levar os sonhos adiante, no entanto, é necessário estudar, conhecer o mercado e se dedicar ao que escolheu com gosto e prazer. Para o desenhista, o retorno econômico e a qualidade de vida são consequências. “Por fim, seja persistente. É possível que você desanime algumas vezes, ouça pessoas dizerem que não vai dar certo ou coisas do gênero. Duvide delas e acredite em você”, conclui.
Highlights do livro Startup Brasil, de Pedro Mello e Marina Vidigal (Editora Agir) – reprodução autorizada pelos autores.

