Gilberto Mautner, um visionário da internet brasileira
O primeiro contato de Gilberto Mautner, um dos fundadores da Locaweb, com um microcomputador foi aos 13 anos, quando ganhou de presente de aniversário um TK 85. “Quem viveu essa época, e era apaixonado por tecnologia como eu, com certeza vai se lembrar dessa máquina que usava a TV como monitor e fitas cassete para gravar os programas”, recorda-se.
Em 1989, Mautner entrou na faculdade de engenharia eletrônica do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA), na época o curso mais próximo da computação que havia no Brasil. Seu primeiro emprego foi em uma empresa que desenvolvia programas (software house). Logo depois trabalhou na Andersen Consulting (atual Accenture), onde pôde programar em varias linguagens, e teve a oportunidade de trabalhar durante um ano nos EUA.
Graças a essa experiência pôde ver de perto o nascimento da Netscape, que popularizou a navegação na rede. “Fiquei encantado por testemunhar o início da internet. Era uma coisa de arrepiar para alguém como eu e rapidamente enxerguei o significado que aquelas soluções teriam no mundo. Fiquei contagiado”, relembra.
Ao retornar ao Brasil, Mautner propôs ao primo e ao tio fazerem algo na internet. Assim nasceu a Intermoda, semente do que seria futuramente a Locaweb. “Era um portal para que empresas do ramo têxtil tivessem uma presença na rede e pudessem fazer negócios.”
Como no Brasil não havia tecnologia para isso em 1997, Mautner montou a infraestrutura fora. Viajou para os EUA e colocou o servidor para funcionar em San Jose, na Califórnia. Voltou e ficou administrando tudo remotamente. Todo o investimento foi feito pela confecção do tio, algo em torno de US$ 30 mil, na época. No entanto, foi um fracasso. O site praticamente não recebia visitas e o negócio acabou em quatro meses.
Mautner e o primo não desanimaram. O tio sugeriu que oferecessem serviços para qualquer tipo de empresa e não só para o setor têxtil. Nos EUA o serviço já existia e era conhecido como web hosting. “A ideia era boa e decidimos experimentar.” O nome Locaweb nasceu da junção das palavras “locação” e “web”, e sete dias depois da conversa inicial já estava funcionando. “O começo foi muito simples. Tínhamos apenas uma página com um formulário dizendo: Você quer ter um site? Inscreva-se aqui.”, conta.
No dia seguinte já apareceu o primeiro cliente com dez empresas querendo fazer páginas na internet. O único problema, segundo Mautner, é que com ele veio também o primeiro calote. “Por sorte, conseguimos manter os clientes apresentados por ele.”
Pés no chão
Mautner considera que a convivência com o tio na confecção foi fundamental para o desenvolvimento da sua empresa. “Tê-lo por perto foi como fazer uma escola de administração.” Um ponto que o tio sempre repetia é que a empresa tinha que dar lucro e isso tinha que ser uma meta. Enxergar isso com clareza desde os primeiros passos fez com que a Locaweb sempre administrasse suas contas com muita disciplina. “Nossas ideias são inovadoras, mas nossos conceitos de administração sempre foram muito tradicionais. Essa base fortaleceu desde o princípio a saúde financeira da empresa, que está aí para quem quiser ver.” Outra dica importante que Mautner seguiu à risca: valorizar o serviço e, ao mesmo tempo, cobrar um preço justo.
Com o crescimento foi necessário contratar mais pessoas e nos primeiros anos Mautner investiu muito na compra de servidores e em publicidade, área que o primo dominava e que, graças ao seu trabalho, tornou a Locaweb um sinônimo de hospedagem de sites. “O nome Locaweb hoje é identificado como uma categoria de serviços, algo como Bombril para a palha de aço”, compara.
A prioridade da empresa era criar bases para o crescimento e só depois pensar em retorno. Assim foi possível suportar o crescimento explosivo da demanda no ano 2000, quando a empresa quadruplicou de tamanho. Na mesma época o tio se desfez da sua confecção para virar executivo da Locaweb. “Precisávamos da ajuda de alguém experiente e a sua vivência tinha muito a agregar.” Naquele ano a empresa começou a dobrar de tamanho a cada três meses e era preciso se estruturar rapidamente. “Se você não aceitar o crescimento, nunca estará preparado para ser grande.” Viver com os pés no chão foi benéfico quando a bolha da internet estourou. Na contramão de todo o mercado, a Locaweb chegou a registrar crescimento em 2001.
Crescimento e parceria
Para atender a demanda crescente, Mautner concluiu que seria necessário se aliar a milhares de pequenos desenvolvedores. Agências digitais e web designers passaram a trabalhar com a Locaweb e fornecer serviços para os seus clientes. Durante esse processo foi criado um encontro anual que já dura 14 anos e conta com mais de 20 mil parceiros espalhados pelo Brasil.
Mautner acredita que essas parcerias foram fundamentais para o sucesso da empresa e o modelo de negócio não funcionaria sem eles. “Encontramos uma forma sustentável de crescer”, afirma. Outro fator importante foi enxergar que era preciso focar no negócio principal, a infraestrutura tecnológica. Em uma empresa bem-sucedida, a estratégia é tão ou mais importante que o produto. “O produto normalmente é fácil de copiar, já as estratégias e parcerias são muito difíceis de serem reproduzidas”, aconselha.
A partir de 2003 a Locaweb passou a atender grandes empresas e assim nasceu a Locaweb IDC (Internet Data Center). Essa área alterou a composição das receitas da empresa e, em 2009, representou praticamente um terço das vendas.
O crescimento não parou por aí. Desde 2009, a empresa oferece serviços de cloud computing (processamento em nuvem), algo como contratar recursos pagando apenas pelo que usa, sem a necessidade de um servidor exclusivo dedicado a um determinado cliente. Esse serviço já representa 10% do faturamento da empresa.
Mercados emergentes
Para Mautner, o Brasil ainda tem muito a crescer em internet. “No setor onde atuamos é preciso enxergar rápido e se antecipar’, aconselha. O momento agora é de internacionalização da empresa e a expansão inicial é na América Latina, com foco na Argentina e México, os dois mercados mais significativos depois do Brasil. “O objetivo é ser uma empresa de internet para países emergentes. Temos vocação para atuar onde os recursos são escassos e muito do que aprendemos aqui pode ser levado também para esses mercados. É um passo importante”, conclui.
Highlights do livro Startup Brasil, de Pedro Mello e Marina Vidigal (Editora Agir) – reprodução autorizada pelos autores.


