Pare de falar em plano de negócios!

Tome cuidado com os extremistas. Vale para terroristas, religiosos, políticos, torcedores e para qualquer outro dogmático arrogante. Tome cuidado com os modismos. Vale para o confrei, sabona, reengenharia e qualquer outro power balance que tenha acreditado. Tome cuidado com os milagres prometidos por extremistas e modismos.

Até 2009, havia o dogma crescente de que novos empreendedores precisavam de um plano de negócio. No Brasil, a moda pegou a partir de 1999, com a então chamada economia pontocom. Diversos oportunistas pegaram carona e lançaram diversos livros traduzidos do inglês, sem ao menos tomarem o cuidado de utilizar exemplos brasileiros. Na correria para ocupar o espaço, traduziram o termo business plan como plano de negócios (e não plano de negócio ou plano do negócio) e o termo equivocado pegou. E como os extremistas prometiam planos que dão certo, muitos acreditaram e o documento se consolidou como um dogma para novos empreendedores. Uma década depois, muitos empreendedores passaram a questionar o plano no Brasil. “Escrevi um e o negócio não deu certo”, alegam. “Não é possível imaginar tudo o que vai acontecer com o negócio”, afirmam outros. Era necessário algo mais milagroso que o plano de negócio.

E veio. Em 2004, Alexander Osterwalder defendeu sua tese de doutorado. Cinco anos depois isto se tornou o livro Business Model Generation, que propõe o artefato Business Model Canvas (BMC) para o planejamento de novos modelos de negócio. Desde 1994, com o lançamento de Reengineering the Corporation: a Manifesto for Business Revolution, de Michael Hammer e James Champy, uma prática proposta em um livro não se espalhava tão rápido. O BMC se tornou ainda mais atraente quando foi associado ao conceito de Lean Startup (LS), difundido por Eric Ries. Apesar de o termo também ser equivocado, pois LS não segue os mesmos princípios do lean manufacturing, a abordagem tem atraído um número crescente de seguidores que acreditam na ideia de lançar um protótipo (ou produto mínimo viável ou MVP) no mercado o quanto antes. Se o MVP pegar, ótimo. Se não, será necessário desenvolver um novo BMC (ou pivotar, termo difundido por Ries). Por fim, o BMC e o LS ganharam ainda mais destaque quando passaram a ser abençoados pelo professor Steve Blank, da Stanford University, e sua abordagem Customer Development.

E agora, empreendedor? Se pensa em empreender, tome cuidado com quem promete planos infalíveis. O plano de negócio pode ajudar no melhor entendimento da empresa, do mercado em que vai atuar e dos recursos que vai demandar. Mas isto não é garantia de sucesso.  Mas também tome cuidado com os que prometem planos super flexíveis. Isto já foi previsto em outras abordagens, como o effectuation, e ser flexível funciona bem… na teoria. Na prática, tem a mesma sensação de um plano de negócio que não deu certo. Tome o cuidado de utilizar o que há de melhor nestes dois extremos. Há muita coisa boa!

Por fim, tome cuidado em não tomar muito cuidado. Caso contrário, não vai empreender nunca.

Por Marcelo Nakagawa, professor e coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper (Instituro de Ensino e Pesquisa).

One Response

  1. Como sempre, excelente texto prof. Marcelo. É interessante que o extremismo é uma prática comum quando aprende-se algo diferente. E não somente no meio empresarial ou acadêmico. Falo sobre os problemas do extremismo tanto para minha filha vegetariana quanto meus estudos no mestrado sobre melhoria contínua. Abraços.

    Reply

Comentários


Enviar

Copyright © HSM Institucional HSM no Mundo Politica de Privacidade Contato Trabalhe na HSM Anuncie no Portal